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Archive for the ‘Literatura’ Category

Cruz e Sousa

In 2ª série, Literatura, Literatura brasileira, Poesia, Vídeo on September 28, 2013 at 12:18 am

Assista o vídeo acima e faça dele um resumo de 10 a 15 linhas.

Turma 26: Clique AQUI para enviar seu texto.

Turma 27: Clique AQUI para enviar seu texto.

Questionário sobre Barroco

In 1ª série, Literatura, Literatura brasileira, Poesia on September 13, 2013 at 10:27 pm

Image

Questionário Turma 16

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Questionário turma 17

Parnasianismo x Simbolismo

In 2ª série, Leitura, Literatura, Literatura brasileira, Poesia on September 12, 2013 at 12:25 am

Questionário para a turma 26.

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Questionário para a turma 27.

Modernismo e depois

In 3ª série, Literatura, Literatura brasileira, Produção textual on June 3, 2013 at 11:00 pm

manifesto

Considerando as mudanças iniciadas pelos autores do Pré-modernismo, os contextos histórico e sócio-econômico do início do século XX, a realização da Semana de Arte Moderna, além da influência das vanguardas europeias, escolha uma das opções abaixo e desenvolva.

1) Produza um manifesto com propostas para uma nova arte e críticas para a arte atual, dialogando com manifestos do passado.

2) Produza um texto dissertativo ressaltando a importância dos artistas modernistas para a arte brasileira, com destaque para os participantes da Semana de Arte Moderna.

3) Escreva uma carta para Oswald de Andrade, fazendo um comentário sobre seus Manifestos. Conte a ele sobre o Tropicalismo.

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Textos de mínimo de duas e máximo de três páginas, manuscritos a caneta preta ou azul, com linguagem adaptada ao gênero escolhido. Listar referências utilizadas numa folha separada ao fim do trabalho.

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Links que podem auxiliar:

Vanguardas europeias

Manifesto Futurista

Manifestos da Poesia Pau-Brasil e Antropófago

Pau-brasil, antropofagia, tropicalismo e afins

Política do café com leite

Romantismo x Realismo

In 2ª série, Conto, Leitura, Literatura on May 29, 2013 at 11:33 pm

duelo

ÚLTIMO BEIJO DE AMOR
de Álvares de Azevedo

Well Juliet! I shall lie with thee to night!
Romeu e Julieta. Shakespeare.

A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos, nas trevas.

Uma luz raiou súbito pelas fisgas da porta. A porta abriu-se. Entrou uma mulher vestida de negro. Era pálida; e a luz de uma lanterna, que trazia erguida na mão, se derramava macilenta nas faces dela e lhe dava um brilho singular aos olhos. Talvez que um dia fosse uma beleza típica, uma dessas imagens que fazem descorar de volúpia nos sonhos de mancebo. Mas agora com sua tez lívida, seus olhos acesos, seus lábios roxos, suas mãos de mármore, e a roupagem escura e gotejante da chuva, disséreis antes — o anjo perdido da loucura.

A mulher curvou-se: com a lanterna na mão procurava uma por uma entre essas faces dormidas um rosto conhecido.

Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo, alongou os lábios… Mas uma idéia a susteve. Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os beiços, o olhar tornou-se-lhe sombrio.

Abaixou-se junto dele, depôs a lâmpada no chão. O lume baço da lanterna dando nas roupas dela espalhava sombra sobre Johann. A fronte da mulher pendeu e sua mão passou na garganta dele. Um soluço rouco e sufocado ofegou daí. A desconhecida levantou-se. Tremia; e ao segurar na lanterna ressoou-lhe na mão um ferro… Era um punhal… Atirou-o ao chão. Viu que tinha as mãos vermelhas, enxugou-as nos longos cabelos de Johann…

Voltou a Arnold; sacudiu-o.

— Acorda e levanta-te!

— Que me queres?

— Olha-me… não me conheces?

— Tu! e não é um sonho? És tu! oh! deixa que eu te aperte ainda! Cinco anos sem ver-te! E como mudaste!

— Sim, já não sou bela como há cinco anos! É verdade, meu loiro amante! É que a flor de beleza é como todas as flores. Alentai-as ao orvalho da virgindade, ao vento da pureza, e serão belas… Revolvei-as no lodo… e, como os frutos que caem, mergulham nas águas do mar, cobrem-se de um invólucro impuro e salobro! Outrora era Giorgia — a virgem, mas hoje e Giorgia — a prostituta!

— Meu Deus! meu Deus!

E o moço sumiu a fronte nas mãos.

— Não me amaldiçoes, não!

— Oh! deixa que me lembre: estes cinco anos que passaram foram um sonho. Aquele homem do bilhar, o duelo à queima-roupa, meu acordar num hospital, essa vida devassa onde me lançou a desesperação, isto é um sonho? Oh! lembremo-nos do passado! Quando o inverno escurece o céu, cerremos os olhos; pobres andorinhas moribundas, lembremo-nos da primavera!…

— Tuas palavras me doem… É um adeus, é um beijo de adeus e separação que venho pedir-te: na terra nosso leito seria impuro, o mundo manchou nossos corpos. O amor do libertino e da prostituta! Satã riria de nos. É no céu, quando o túmulo nos lavar em seu banho, que se levantará nossa manhã de amor…

— Oh! ver-te e para deixar-te ainda uma vez! E não pensaste, Giorgia, que me fora melhor ter morrido devorado pelos cães na rua deserta, onde me levantaram cheio de sangue? Que fora-te melhor assassinar-me no dormir do ébrio, do que apontar-me a estrela errante da ventura e apagar-me a do céu? Não pensaste que, após cinco anos, cinco anos de febre e de insônias, de esperar e desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para te deixar?

— Compaixão, Arnold! É preciso que esse adeus seja longo como a vida. Vês, minha sina é negra: nas minhas lembranças há uma nódoa torpe… Hoje! é o leito venal… Amanhã!… só espero no leito do túmulo! Arnold! Arnold!

— Não me chames Arnold! chama-me Artur, como dantes. Artur! não ouves? Chama-me assim! Há tanto tempo que não ouço me chamarem por esse nome!… Eu era um louco! quis afogar meus pensamentos e vaguei pelas cidades e pelas montanhas deixando em toda a parte lágrimas… nas cavernas solitárias, nos campos silenciosos, e nas mesas molhadas de vinho! Vem, Giorgia! senta-te aqui, senta-te nos meus joelhos, bem conchegada a meu coração… tua cabeça no meu ombro! Vem! um beijo! quero sentir ainda uma vez o perfume que respirava outrora nos teus lábios. Respire-o eu e morra depois!… Cinco anos! oh! tanto tempo a esperar-te, a desejar uma hora no teu seio!… Depois… escuta… tenho tanto a dizer-te! tantas lágrimas a derramar no teu colo! Vem! e dir-te-ei toda a minha história! minhas ilusões de amante e as noites malditas da crápula e o tédio que me inspiravam aqueles beiços frios das vendidas que me beijavam! Vem! contar-te-ei tudo isto, dir-te-ei como profanei minh’alma e meu passado… e choraremos juntos… e nossas lágrimas nos lavarão como a chuva lava as folhas do lodo!

— Obrigada, Artur! obrigada!

A mulher sufocava-se nas lágrimas, e o mancebo murmurava entre beijos palavras de amor.

— Escuta, Artur, eu vinha só dizer-te adeus! da borda do meu túmulo; e depois contente fecharia eu mesma a porta dele… Artur, eu vou morrer!

Ambos choravam.

— Agora vê, continuou ela. Acompanha-me: vês aquele homem?

Arnold tomou a lanterna.

— Johann! morto! sangue de Deus! quem o matou?

— Giorgia! Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um mancebo a quem esbofeteara numa casa de jogo. Giorgia — a prostituta! vingou nele Giorgia — a virgem! Esse homem foi quem a desonrou! desonrou-a, a ela que era sua… irmã!

— Horror! horror!

E o moço virou a cara e cobriu-a com as mãos.

A mulher ajoelhou-se a seus pés.

— E agora adeus! adeus que morro! Não vês que fico lívida, que meus olhos se empanam e tremo… e desfaleço?

— Não! eu não partirei. Se eu vivesse amanhã haveria uma lembrança horrível em meu passado…

— E não tens medo? Olha! é a morte que vem! é a vida que crepúscula em minha fronte. Não vês esse arrepio entre minhas sobrancelhas?…

— E que me importa o sonho da morte? Meu porvir amanhã seria terrível: e à cabeça apodrecida do cadáver não ressoam lembranças; seus lábios gruda-os a morte; a campa é silenciosa. Morrerei!

A mulher recuava… recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos dela… Ela deu um grito e caiu-lhe das mãos. Era horrível de se ver. O moço tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-o no peito, e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo…

A lâmpada apagou-se.

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A CARTOMANTE
de Machado de Assis

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa…” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois…

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di feminina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a…

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

“Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim…”
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa… Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos… Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: “Vem, já, já…” E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco… pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia… ” Que perdia ele, se… ?

Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto… Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não…
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela. curioso e ansioso.

— As cartas dizem-me…

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita… Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato…

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela… E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu…

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade… De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Fim

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Proposta de produção textual

Àlvares de Azevedo foi um grande poeta e prosador do Romantismo; Machado de Assis, por sua vez, é o nome de maior expressão do Realismo brasileiro.

Produza um texto destacando os elementos que nos dois contos melhor caracterizam o Romantismo e o Realismo, como temática escolhida, tratamento dado ao tema, linguagem utilizada, etc. Destaque também os elementos narrativos que compõem cada conto, como enredo, tempo, espaço, foco narrativo e tipo de narrador.

realismo x romantismoQuadro comparativo

Individual. Texto a caneta. Mínimo de 20 linhas. Para entregar.

Páginas do livro didático que podem auxiliar: 165 a 170 – 196 – 238,239, 240, 242 e 247.

Lima Barreto – Crônicas

In 3ª série, Crônica, Literatura, Produção textual on March 4, 2013 at 1:04 am

lima barreto

 

Atenção, terceiros anos, seguem as crônicas de Lima Barreto, base para o nosso projeto principal do bimestre.

Lima Barreto – Crônicas

O Arquivo – Victor Giudice

In 1ª série, Conto, Leitura, Literatura, Produção textual, Vídeo on March 5, 2012 at 6:02 pm

Como parte de nosso trabalho em busca de desvendar aquilo/isso que se pode chamar de Literatura, pensando em suas funções e características, vamos ver/ler/ouvir o conto O Arquivo, de Victor Giudice, e, considerando as imagens na sequência, responder à pergunta lançada.

 

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A Literatura/Leitura é importante para o ser humano? Por quê?

Para responder, produza um texto livre (dissertação/carta/conto/etc), de 20 a 30 linhas, a ser entregue em sala.

Abraço!

Prof. Jr.

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“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das conseqüências.”
Pablo Neruda

 

Um museu de eternas novidades

In 3ª série, Língua Portuguesa, Literatura on November 20, 2011 at 1:29 am

museu-da-lingua-portuguesa

Maria Andrade

Se alguém entendeu realmente a natureza fluida do nosso idioma, esse alguém foi a equipe de criação do Museu da Língua Portuguesa. Aberto ao público desde março de 2006, na Estação da Luz, um lugar que por si só já é uma bela exposição, o museu se tornou rapidamente um sucesso de público. Mas, o que faz um lugar de exposições do imaterial algo tão atrativo?

É justamente a dialética a resposta dessa questão. Enquanto a palavra “museu” carrega a construção secular daquilo que é digno de lembrança, ou seja, do clássico e imutável, a língua portuguesa só existe porque se encontra constantemente em mutação. A língua só é quando em movimento. E em criação. Então, o primeiro grande atrativo deste lugar é a curiosidade: como será um museu sobre aquilo que não se pode contemplar da mesma forma que um quadro ou uma escultura milenar? Como será possível apreender a língua em um lugar? Buscar por essa resposta já vale a pena. Com ela, encontraremos um lugar em que não apenas a contemplação, mas a interatividade e o despertar de outros sentidos além da visão, como o tato e a audição, acontecem.

Outro ponto forte é respeitar a natureza da língua que homenageia. O museu, dividido em três andares, é extremamente dinâmico sem que, com isso, seja menosprezada a importância de sua história, além disso nos dá total percepção de uma língua portuguesa construída por nós, brasileiros, influenciada por diversos povos, crenças e culturas, e ainda disposta a abraçar nossas mais variadas formas de expressão.

Essa divisão entre espaços variados é favorável ao encontro de diferentes faixas etárias à instalação: no primeiro andar, encontramos uma exposição temporária, sempre homenageando alguém diferente, mas é principalmente a forma inusitada e ao mesmo tempo fiel a quem presta a homenagem que faz desta uma parte emocionante; no segundo andar também vemos outro encontro de opostos muito bem resolvido, a história da língua portuguesa é mostrada por meio de tecnologia interativa e linguagem cinematográfica contemporânea, lugar em que brincamos tão facilmente quanto costumamos falar; e o inesquecível terceiro andar, que é dividido por duas instalações, uma desfiando a teia de uma língua que faz história e constrói os versos mais bonitos do mundo, e a outra que faz com que esses versos escorram do teto, e as palavras parecem realmente chover nos corpos e ouvidos de quem assiste, extasiado, ao espetáculo da linguagem poética em movimento.

Quem teve a oportunidade de ir, provavelmente vai ler este texto e dizer: é muito mais que isso. E é. Por isso, se você ainda não foi, já está perdendo tempo. Vá lá: Praça da Luz, s/nº, Centro de São Paulo/SP, em frente à Pinacoteca. Mais informações, você encontra aqui: http://www.museulinguaportuguesa.org.br/

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Maria Andrade tem 26 anos, é Professora de Português, Poeta e Especialista em Marketing.

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Post original AQUI!

A militância política de Cruz e Sousa

In 2ª série, Literatura, Poesia on November 19, 2011 at 8:41 pm

Nascido há 150 anos no porão de um velho sobrado pertencente a um militar que lutou na Guerra do Paraguai, na antiga ilha de Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), na província de Santa Catarina, João da Cruz e Sousa (24-11-1861/19-03-1898) é hoje, sem sombra de dúvida, a maior referência da chamada escola simbolista brasileira; mas não é só. O seu legado literário — seja como poeta, seja como jornalista — soma-se à sua militância política durante o processo abolicionista, sobretudo após a eclosão desse movimento, que, em maio de 1888, teve nele um dos mais ardorosos próceres. Some-se a isso também a sua jornada existencial, em que uma falsa ideia de liberdade, igualdade e fraternidade — lema revolucionário, de origem francesa, difundido e defendido por ele — caiu totalmente por terra, sobretudo após o advento da República, de coloração positivista.

Cruz e Sousa, negro e filho de escravos, criado sob o forte regime escravista, foi educado nos moldes do padrão europeu, no Ateneu Provincial Catarinense, sob a tutela dos padres e dos catedráticos, mas jamais deixou de pensar e sentir como africano — ou agir, na esteira dos demais, como um dos seus descendentes. Na terra natal, mesmo na fase estudantil, tornou-se um caso raro entre os colegas do educandário, pela dedicação e pelo aproveitamento, apesar de ser aluno externo e filho de um “pobre jornaleiro, que tudo sacrifica pela educação dos filhos”.

Era aluno aplicado, um dos melhores de sua turma, derrubando, com o seu exemplo, estereótipos racistas em grande voga na época, sobretudo por meio de Cesare Lombroso, defensor da tese do “criminoso nato”, mas que no fundo atribuía erroneamente aos negros, especialmente aos negros, a pecha da incapacidade do aprendizado científico e da falta do desenvolvimento intelectual.

Sociedade local não admitia ver um “negro letrado”

A militância literária e política de Cruz e Sousa teve início durante a juventude. Começou a escrever para a imprensa local, publicando poesia e prosa, esta no formato de contos e crônicas. A prática jornalística o fez sonhar com o poder e a glória. Num arroubo de entusiasmo, diante do sucesso de suas conquistas, teria dito, num tom meio profético e desafiador, à noiva desterrense: “Hei de morrer, mas hei de deixar nome!” ou “Ainda hei de governar Santa Catarina!”.

Desenvolto e compenetrado, não percebia a sorrateira calda dos inimigos que lhe rondavam, prontos para aplicar o bote fatal: era visto como um negro moleque, pernóstico, folgado. Surgem daí as consequências: o irmão Norberto, embora tenha tido, como ele, sólida formação, precisou trabalhar como tanoeiro para sobreviver; a mãe, Carolina Eva da Conceição, passou a ser dispensada das casas das patroas, que não admitiam ver nos jornais os textos abolicionistas do filho da empregada, passadeira e quituteira. O próprio jornal que editava, “O Moleque”, deixou de constar na lista de convidados da comunidade francesa, no aniversário da Bastilha, pela razão de ser seu editor um homem negro.

Em um dos seus famosos sonetos, escrito já no final da vida, dizia: “Vê como a Dor te transcendentaliza!/ Mas do fundo da Dor crê nobremente./ Transfigura o teu ser na força crente/ Que tudo torna belo e diviniza.” Desde cedo, provou das agruras e da reação preconceituosa que a sua luta provocava. Mas não estava só. Relacionava-se com a comunidade familiar negra da ilha, que lhe ouvia ao piano, ou interagia com os jovens artistas de sua geração, que queriam espanar da terra a poeira da imbecilidade e da pieguice. Sabia que pagaria alto preço por suas ousadias, traduzidos no fechamento de portas de cargos públicos, censuras e deboches pelos jornais.

Sobreviver a isso era uma tarefa nem sempre prazerosa e fácil: a sociedade não admitia ver um negro elegante, falante e letrado, sem sotaques regionais, envolvido com a política e com as letras clássicas. Por que ele não enxergava, de fato, o seu lugar? Por que ele, afinal, não agia à luz dos seus irmãos de cor? Mas Cruz e Sousa, o negro provocador, sempre tocava na mesma tecla, em seus eloquentes discursos: “Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa ante as nações disciplinadas e cultas. Não se compreende, nem se adaptando ao meio humanista, a palavra escravo, não se compreende da mesma forma a palavra senhor”. Não! Cruz e Sousa estava fadado a grandes voos. As provações da vida, que não lhe foram poucas, iriam persegui-lo até a hora da morte.

O fazer literário tornou-se para Cruz e Sousa um meio de vida e uma obsessão. Não que, ao transferir-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde logo se casou com a preta Gavita, dispensasse o magro emprego de Arquivista da 5 Divisão da Estrada de Ferro Central do Brasil. Mas gostava de fazer o que lhe dava mais prazer. Na repartição pública, a toda hora, precisava se livrar de um chefe mulato e racista. “É que eu lhe recordo a origem — dizia o poeta —, tenho talvez a mesma cor da mãe.” A chatura do emprego, as dificuldades financeiras, a família numerosa, a ronda da miséria cada vez mais próxima faziam com que a roda literária e a boemia do centro da cidade lhe oferecesse melhor regalo e conforto de espírito. Mas não convivia, como podia se supor, com os grandes: Machado de Assis, Olavo Bilac, Araripe Júnior, Graça Aranha, Artur Azevedo, José Veríssimo, Raimundo Correa ou José do Patrocínio. Ao contrário, sua roda de escritores era praticamente anônima e muitos, por incrível que pareça, nem obra publicada tinham: Oscar Rosas, Alvares de Azevedo Sobrinho, Pardal Mallet, Emiliano Pernetta, Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, B. Lopes, Emilio de Meneses, entre outros.
A esta “plêiade” (para empregar um termo muito usado pelos parnasianos) é que Cruz e Sousa se liga no Rio de Janeiro para alçar o almejado voo literário e artístico. Dotado de grande talento imaginativo, consegue criar uma literatura de sugestão, de nuance, de plena sonoridade, de teor do vago, do indefinido e da espiritualidade, e que, no rastro da literatura portuguesa de Antero de Quental e Cesário Verde, ou francesa de Mallarmé e Baudelaire, absorveu o cromatismo dos nossos trópicos e se transformou, pela linguagem, carregada dos vestígios bantos, na ancestralidade do seu sangue africano, numa poesia nova, sensualizada e sonora: “Vozes veladas, veludosas vozes,/ Volúpias dos violões, vozes veladas,/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos vivas, vãs, vulcanizadas”.

Lutando contra o meio adverso, estabeleceu uma guerrilha literária, à moda que empreendeu na província onde nasceu. Com isso, sofreu os reveses do aguerrido combate, ficando de fora do grupo de fundadores da Academia Brasileira de Letras, liderado por Machado e Lúcio de Mendonça, e que convidou para a Casa um Graça Aranha, à época sem qualquer livro publicado, enquanto Cruz e Sousa havia lançado, num único ano, o “Missal”, de prosa, e os “Broquéis”, de versos, ambos considerados inauguradores do simbolismo no Brasil.

Isolamento no fim da vida não diminuiu combatividade

A glória de Cruz e Sousa veio mesmo depois da sua morte. Magoado e só, restava ao poeta negro apenas cuidar da família e escrever, escrever, sem dar trégua para a tuberculose que lhe minava o organismo, agravada após os seis meses de loucura da mulher. O vate não se cansava de protestar, de pedir justiça, de cobrar responsabilidade dos poderosos. Sentindo que todos os olhos estavam voltados contra si, a imprensa amordaçada nas mãos do grupo rival, pouco lhe restava como alternativa à sua criação e à veiculação de sua profícua produção.

Já no final dos seus dias, alimenta ainda mais sua dor e seu ódio (“Ó meu ódio, meu ódio majestoso”, cantava no soneto “Ódio sagrado”). A doença faz dele um homem amargo e soturno, visionário, tornando a sua poesia noturna e levemente trágica. É nesse momento que se fecha, se enclausura, trancando-se na Torre de Marfim da sua criação e do seu isolamento. Vê-se ferido (“Alma ferida pelas negras lanças/ Da Desgraça, ferida do Destino,/ Alma a que as amarguras tecem o hino/ Sombrio das cruéis desesperanças”) e emparedado dentro do seu próprio sonho.

UELINTON FARIAS ALVES é jornalista e escritor, autor da biografia “Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil” (Pallas Editora, 2008), entre outros livros

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/05/a-militancia-politica-de-cruz-sousa-414931.asp

O “problema” de Camões

In 1ª série, 2ª série, 3ª série, Literatura, Poesia on October 17, 2011 at 8:49 pm

De um e-mail que recebi. O que vocês acham?

“O vestibular da Universidade da Bahia cobrou

dos candidatos a interpretação do seguinte
trecho de poema de Camões:

‘Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer ‘.

Uma vestibulanda de 17 anos deu a sua
interpretação :

‘Ah, Camões!, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo!’

A Vestibulanda ganhou nota DEZ, pela
originalidade, pela estruturação dos versos,
e das rimas insinuantes.

Foi a primeira vez que, ao longo de mais de
500 anos, alguém desconfiou que o problema
de Camões era apenas falta de mulher…”

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